quinta-feira, 28 de maio de 2026

'Por todos nós.'

Uma ópera, forma músico-teatral rica e rara, pelas condicionantes para a emersão conjuminada de letra e música, quase sempre por autores que se juntam para o feito, que mantendo o mérito absoluto da criação, mor das vezes não justifica os interesses materiais (comerciais) que é um dos aspectos de levar a palco seja o que seja. A obra de Lídia Jorge, por seu mérito, inspirou a coragem e força dos autores da ópera, que a realizaram e a encenaram no Teatro Aberto nestes dias finais de maio de 26. A primeira terça parte da obra é excessivamente solene, pesada mesmo, demasiado wagneriana, mas pode ser uma avaliação indiossincrásica minha, que detesto Wagner e amo Pucini. Depois a melodia encontra um registro mais suave que sustenta o texto mais acordemente. O feito conseguido por João Lourenço e Vera San Payo de Lemos, autores do libreto é notável, uma vez que não é fácil resumir um texto de 342 páginas em cerca de quarenta. Mas lá está, escolheram as palavras certas, resumiram o texto não perdendo nada do enredo, nem da sensação de abandono e crítica das palavas da autora do original que lhes conduzia. Já a música de Eurico Carrapatoso demora um pouquinho a se encontrar, a tomar o rumo da sensibilidade original d'Os Memoráveis, mas esta é a sensação com que fiquei, o que não impediu o aplauso entusiasta do público à Ópera concebida. No entanto o que era voz e sentimento geral é que a obra é longa demais, o que também é minha sensação, entretanto este é o drama de todo autor de trabalho sobre obra consagrada, como é o texto de Lídia Jorge; Onde cortar? Que passagem suprimir? Uma vez que sabem que a maior parte do público que virá, apesar do nome ser outro, virá pelo texto original que conhecem. Deixá-los lesados ou carentes de determinada passagem é sempre um dilema, que os autores do libreto aqui preferiram solucionxr fazendo uma obra mais extensa. O que não lhes rouba em nada o mérito da brilhante interpretação que criaram. Só um reparo, a roupa do embaixador que devera ser de seda, e a falta do copo de uísque em suas mãos. Brilhante e difícil, uma vez que a ironia, mesmo sátira que também é Os memoráveis, desde o título escolhido pela autora, está toda na ópera 'Por todos nós', qual seja contraponto desta sensibilidade original de gozar com todos nós, nos transformando em Anas Marias Machados, um pouco órfãos, um pouco conflitantes com o pai que, com brio e dificuldade, luta por manter seus princípios, custe o que custar - NADA MAIS PORTUGUÊS - orgulhosamente sós como nos queria l'ancient regime em seu "requinte nacional". No programa da ópera falam todos de sua razão, canté de cada um dos envolvidos, inclusive a primitiva autora que revela de sua inspiração, sua medida desmedida de tudo dizer sem nunca etiquetar, nada mais louvável, e fica também aí consignado algo admirável, e ademais imensamente português, o silêncio, que é tantas vezes mais eloquente que a mais efusiva cantata. Uma vez encontrados os caminhos de música e letra, como uma pintura que encontra o caminho da luz, faltava-lhe a moldura, aquela que iria compor a obra para que esta fosse apresentada em sua integralidade e beleza, não roubando nada do relato episódico de uma trama que é matriz da recriação de um povo e país que se reinauguraram com esses acontecimentos. A moldura deveria ser de tal modo neutra, que não conflitasse com a obra que enquadra, por um lado, e necessariamente dinâmica, por outro, para acompanhar sua sequência. E devera ser simples para não obstar a fluidez dos acontecimentos que se sucedem em diversos ambientes. A solução encontrada permite infinitas cenas num único ato, permite contar a história onde quer que ela aconteça sem interferir no contesto narrativo, nem lhe impor quebras. Admirável solução de engenharia cênica que ademais se vale das cores para sugerir os diferentes universos de que trata, mantendo a ação de per si, em si e consigo, se me permitem a aliteração, desbobinando a história, melhor será pluralizar, as histórias que se entrelaçam numa única, que ademais é a de todos nós. Pura magia cênica cujo ritmo define tudo o que a música canta. Não se esqueçam é uma ópera. 22 personagens em cena, mais o coro com 28 em cena, temos meia centena; mais a orquestra sinfônica portuguesa no fosso, maestros e dirigentes do coro, e 45 técnicos no backstage, e temos uma superprodução, coisa rara em Portugal, onde os ditâmes economicistas do público influenciam para realizações o mais superficiais possível. Dói-me saber que terá um número de apresentações inferior ao dos dias da semana, quando em Londres há peças a décadas em cartaz; destino cruel que mais valoriza a coragem da produção desta ópera que não vai enriquecer ninguém, mas cuja existência enriquece a cultura e a própria identidade portuguesa, que só nos resta agradecer que exista Por todos nós.

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