quinta-feira, 11 de setembro de 2025

TER DÓ NO CORAÇÃO - "SECUNDUM MAGNAM MISERICORDIAM TUAN".

A Natureza Humana desde sempre demonstrou compaixão, pondo-se no lugar do outro que está em sofrimento, tendo piedade, sentindo pena, tendo dó. Essa sensação empática e solidária que nos toca a todos, expresando-se em grande compaixão. Podendo ser incondicional como a 'Kuan Yin', a deusa, bodhisatva, A Senhora da Misericórdia, Domina Misericordiae. Porém ser misericordioso, perdoar, aceitar o erro de alguém, não significa compactuar com ele, "Ama o pecador e odeia o pecado.", nos indica a reflexão teológica. A ação simbólica de expulsar os vendilhões do templo deixa ver claramente a mensagem, o Ser mais misericordioso que passou por este planeta não tolerou a ação de desrespeito e ultraje de transformarem a Casa de Seu Pai num negócio, e os expulsou violentamente sem hesitar um só momento, deixando-nos a lição. A frágil relação entre esses dois procedimentos, o de entender o erro, sem compactuar com ele, é a terrível corda bamba, na qual se encontrará todo aquele que quiser ser misericordioso sem tolerar o pecado. Este romance de Lídia Jorge transita nas esferas antagâonicas destes dois valores, sem perder a noção nem de um nem de outro, na conformidade da indulgência com o pecador, e na intolerância com o pecado. Longe de ser um romance religioso, é um romance humano, no que a Humanidade tem de melhor e de pior, na sua condição contraditória de dor e alegria a um só tempo, "Misero me. Però brindo a la vita.", ou, melhor, em dois tempos tão próximos que se confundem. Em realidades tão antagônicas que se igualam e homogenizam, uma vez que os extremos se tocam. Só lendo. As catorze ações misericordiosas, muito bem conhecidas e documentadas, as ditas obras de misericórdia, que são sete ao nível do corpo e sete ao nível do espírito. As corporais: dar de beber a quem tem sede, dar de comer a quente fome, vestir os nus, albergar quem não tem teto, visitar os doentes, visitar os presos (visitar=consolar) e enterrar os mortos. As espirituais: Aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência aos desagradáveis e orar pelos vivos e pelos mortos. SEREMOS ETERNAMENTE CARECENTES QUE ESSAS OBRAS SE REALIZEM EM NÓS! DECLARAÇÃO DE INTERESSE. Meu envolvimento com o romance acontece desde logo por uma correspondência que troquei com a autora, sugerindo procedimentos emocionais para a escrita de semelhante enormidade, para que escrevesse sem tentar conciliar ou expor as desproporções inerentes à temática, e aceitar sua adversidade como moto e razão de existência, uma vez ultrapassada pelo tema. Assim aconselhava à autora, presunção a minha, ainda mais neste âmbito incomponível, que só um sentido e um sentimento do universal permitiria abordar tema com propriedade, nada há que dizer ou fazer, onde só a sensibilidade conta, e Lídia a tem com louvor, é mesmo incrível ver sua percepção e entendimento! Naquela correspondência lhe sugeria então que ouvisse o 'Miserere' cantado por Zucchero e Pavarotti, em sua confissão de nossa condição de miséria, pequenez na qual, perdidos na carne, falseamos, mentimos, com dúvida e desorientação, espanto sem humildade, perturbados, pecamos. "Ma che mistero." E mais sugeria o 'Miserere mei, Deus', de Allegri, invocando mesmo: "Incerta et oculta sapientiae tuae manifestate mihi." E Dona Lídia foi plenamente atendida. "Ancora non che" "Stabat mater Alegri." Ou ao reverso: Como um ocaso, assim se pôs ela, a mãe, como não pode deixar de ser na imagem de lidarmos com o incognoscível, e Lídia o sabia desde sempre. - Ao declarar logo no início de que valeu-se da melopeia-guia sugerida, faz-me tornar substância intrusa neste contexto, e dá noção da intensidade e verdade da autora em cada palavra, a nada menosprezando, nada excluindo. Alcançando seu intento: MISERICÓRDIA.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Partir qualquer coisa - Lídia Jorge.

Ninguém gosta de partir nada, mas às vezes é necessário, ninguém não é bem o caso, não nos esqueçamos dos psicopatas, mas não iremos falar deles. Contudo para falar seja o que for, carecemos de palavras, estas que são nada, e que são tudo - nada a nos ferir fisicamente, tudo a nos conspurcar, inevitáveis presenças aterrorizantes quando trazem verdade reveladora. Algumas das palavras geratrizes desta reflexão, que nem será preciso dizê-las em contexto, posto que só sua enunciação, suas presenças reveladoras, rasgam o duplo véu de equívocos e hipocrisia, fruto de um tempo de enganos: diversidade - "um é alto, outro é baixo, outro é gordo", Camões - 500 anos, cemitério - Lagos, animar - "o futuro está cheio de passado", discurso - ler "uma coisa íntima", divisão - apupos e palmas, controvérsia - "o que está visível", denúncia - "o mar é azul e tem ondas", símbolo - qualquer coisa pode ser, realidade - qualquer coisa pode ser, patriota - "os seres humanos são seres com ambiguidades", nacionalista - chantagem, agressões, insultos, sociedade - minar, esperança - "atravessar a lama". A palavra atravessar traz consigo, em contradição com seu sentido original, a ideia de ultrapassar, vale dizer: deixar para trás o obstáculo, logo quem visa atravessar, tem esperança forte num futuro melhor. E quem não tem esperança não pode viver.

Contudo sempre há escolhas: Respeito ou desrespeito, qualificação ou desqualificação, equilíbrio ou desequilíbrio, prisão ou liberdade, ordem ou desordem, bom ou mal, narrativa ou realidade, amor ou ódio, dizer ou calar. E neste processo de eleição só nos vale nosso íntimo, as verdades que fomos acumulando e que nos moldam. Fora isto, sem interiorização, somos levados pelo 'l'air du temp', tão propício a enganos, e há tantos enganados hoje, mas não deixam de ser nossos irmãos, que devem ser esclarecidos, devem ter informação crítica que os elucide. Todo silêncio é cúmplice. Ser-se menos do que se é, é pactuar nestes tempos em que a bomba, que é já octogenária, mas sempre presente, fala sem nada dizer, fala de nós, tempos esses onde ressurgem os falsos profetas. Só em nossa inteireza de tudo que foi avaliado e acumulado em nosso interno, temos verdade, e a devemos expor. Infinitos precursores de possibilidades positivas. Tudo mais é desgraça, tudo mais é minoritário, afastando-nos do infinito da percepção, gerando atropelo por faltar coragem em mandar calçar as galochas para evitarmos a lama, uma vez que isto denuncia a lama. Uma pessoa ATENTA E INFORMADA, PATRIOTA, PREOCUPADA, SINCERA (Como bem notou a Sra. Margarida Devim em relação a Lídia Jorge) não se pode furtar a dizer a VERDADE em sua INTEIREZA, e apontar a lama, correndo todos os riscos que isto representa, desassombradamente, porque seus valores são os dos que têm esta característica extraordinária de sentir "dor pela dor dos outros" um factor agravante da dimensão da verdade interior em toda sua plenitude. Se isso nos tornar impopular, se isso antagonizar muita gente, aqueles que são movidos pelo 'l'air du temp', pois que seja. Não há como ser menos!

Da infinitude.

Muitos não compreendem a extensão que tem a condição de disponibilidade, a imensidão do possível, pelo que representa de amor, porque a maior forma de amor é doar-se, comungando com o outro, esta condição maravilhosa de pertença, de ser parte, de ter parte, de participar, que é o processo mágico de criar, mudar e construir o mundo.

Infinito só Deus, mas fazermos a transposição, para irmos além das nossas limitações mesmo não tendo o entendimento pleno do universal, cingidos por não tentarmos contemplar além, se formos assim, restringimo-nos ao circunstante e ao ego, esquecendo do que está além, e do outro que está connosco. A mais perfeita condição de ser, é ver o próximo e comungar com ele, profissão de fé absoluta. A bem da verdade temos que reconhecer que criamos uma sociedade de ilusões e meias verdades e mentiras, e também falsas realidades, que no dia a dia alimentam e re-alimentam condições destorcidas. Encontrar a maravilha que nos rodeia, abrirmo-nos para o transcendente, requer o interminável exercício de busca da compreensão. O que nos exige sempre constante esforço a alma.

Quem conhece Lídia Jorge, ao menos que seja por seus escritos, terá noção da dimensão de seu entendimento do mundo, e de sua capacidade de exoneração, livre que é, mas como isso é tão raro infelizmente, ao mesmo tempo assusta, como gera incompreensão. Toda verdade transcende por ser universal na expressão, mas é também de todos na percepção, e, como tal, ultrapassa os liames das restrições da sociedade, os das meias verdade e das ilusões, sendo o que é: completa verdade, e evidentemente partindo sempre qualquer coisa.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Shiva

Como crê o hinduísmo: "É preciso haver destruição para haver renovação." entretanto o desempenho desse papel de destruidor, quando não é feito por um deus, tem consequências graves devido ao retorno. As reações expectáveis ao processo de destruição que ninguém deseja, processo que só mais tarde revelar-se-á útil, talvez até mesmo necessário, mas como é doloroso, é indesejado e indesejável, e causa enorme sofrimento, suscitando fortes reações contra. Nesta perspectiva, Donald Trump, o nosso Shiva de plantão, presta enorme favor ao mundo com sua imensurável estupidez, papel que desempenha brilhantemente por sua cegueira quase absoluta, total falta de empatia, fruto da ignorância e do narcisismo, onde nada mais vê do que a si mesmo: Herói do universo, posto que o mundo será pouco certamente para tanta presunção. Cabe aqui lembrar Eclesiastes 1:2, 'Vanitas vanitatun et omnia vanitas', tendo em vista que de sua presença, como de sua passagem, resultará a vacuidade de sua existência oca, esta mesma que o obriga a marchar. Criar delírio, irritação, demonstrar contradição, bizarria, excentricidade, fraquesa psíquica, como método, ser agressívo, provocatório, torcido e retorcido, cabuloso, discricionário e ofensivo, para gerar irritação e constrangimento generalizado, e mentir, mentir, mentir, gerando suspeitas e instabilidade até atingir o estágio dito de podridão cerebral, onde o indivíduo perde os critérios de análise, sendo este o modo de instaurar o caos. Entretanto a destruição. Como eu havia assinalado ainda durante a primeira campanha eleitoral (2016), trata-se de um psicopata perigoso (título mesmo do artigo disponível na net). Durante seu primeiro mandato não conseguiu, graças à forte estrutura do poder executivo americano, criar o caos, sua constante intenção. Porém agora retornou preparado, industriado, com companhia adequada, lançado em 'Ordens Executivas' às centenas, que vão desregulando, desfazendo, destruindo. Desregulando porque toda ordem é contra o caos, portanto é preciso atacar a ordem, o que faz com essas 'ordens' executivas, um recurso extraordinário da presidência dos EEUU, em caso de crise. Desfazendo, posto que o grande edifício da Democracia necessita ser partido aos pedaços, desfeito aos bcados, para que o caos sobrevenha. É pois a obra de Shiva, só que o deus indu tem uma intenção que, apesar de destrutiva, é renovadora, como quando se derruba um edifício para construir outro. Trump só deseja os escombros. Em todo o caso, em defesa de Trump. De facto o que parece estar por detrás das ações de Trump, é a falta de dinheiro da administração central americana que, como sabemos, desde há muito é deficitária, se financiando ora com a emissão de papel moeda, ora com o aumento da dívida pública, que há muito atingiu valores impagáveis, e que tem a China como maior detentora dos valores em débito. Trump como comeriante-merceeiro, viu que não é nada bom esse endividamento, e a constante derrapagem da dívida pública com aumentos anuais do déficit resultando em mais dívida, vendo uma incontornável tragédia no horizonte, patrocinada por uma dívida impagável. Desde há muito que a China, do enorme estoque da dívida americana que detém, só recebe pagamentos em Yens, ou em ações de empresas sólidas americanas, o que evidencia o nível de descrédito a que chegou o débito e seu meio de pagamento, o dolar (Com o Euro a situação piorou muito, se os BRICS lançarem sua moeda, será ruinoso para os EEUU.). Se a situação chegou ao ponto de não haver voltas a dar, e ele está cortando em tudo, está certo, se o faz preventivamente, está certo. Se o faz por qualquer outra razão, como por exemplo atender os interesses dos milionários que o elegeram, com diminuição de seus impostos, terá de arranjar a falta, o buraco que vai gerar no orçamento, em algum lugar. Se o faz por boas razões, seu único erro verificável é a violência com que o faz, como mereceiro insandecido. Lembra-me uma história do interior de Minas Gerais, onde um merceeiro de nome João, sem recursos para pagar suas dívidas, resolveu dobrar os preços de toda a mercadoria de sua mercearia, em cidade pequena, muita da freguezia não teve outro remédio se não pagar, por não haver lá outra mercearia. Mas um belo dia, quando ele chegou a loja, havia um rato pendurado à porta com um cartaz que dizia: "Chamaram João de rato, João não importou-se. Chamaram o rato de João, o rato suicidou-se." Para além do divertido da história, ela revela a reação que provocam as decisões unilaterais, e que elas não são solução para os problemas. É assim como alterar os nomes das coisas, não muda nada, só causa desorientação. Faz porque faz, e porque faz. Milhares de despedimentos, o fim de muitas agências, o corte em muitíssimos subsídios, e as absurdas tarifas, evidenciam algum problema grave de caixa. Para além de Trump ser um psicopata, que o é, não é estúpido o bastante para promover o caos que promoveu sem que algo efetivo o afligisse, e menos ainda a administração norte americana o permitiria se não houvesse um efetivo problema a os atingir. O enorme mistério, como sempre, acabará por ser sabido, entretanto o caos disseminado terá destruido a força da sociedade norte-americana, tanto mais quanto mais Trump atuar nesse sentido. Ao espelho. Uma pessoa que não fez curso superior não tem nem respeito, nem tem estima, pelas Universidades, pela Academia, pelos elementos do saber e da cultura, há nobres excessões, é verdade. Uma pessoa que não tem formação não tem respeito pelas instituições, sem excessão, aqueles que não atendem às ordens judiciais, aos conselhos de Estado, às sugestões e evidências técnicas e científicas, pensam que tudo se reconstrói, não importa o tempo, os custos humanos e as vidas destruídas. É Shiva que dissemina o caos sem renovação. Ser que só valoriza os elogios. Ignora as críticas. Não tem noção da realidade. O MEDO COMO ARMA. A arte do medo, de seu emprego como instrumento de coerção social, desde as mais remotas épocas, traz resultados imediatos, ao mesmo tempo que gera um altíssimo poder de reação, pressão que se vai acumulando, que uma hora certamente arrebentará. Desconhecendo outro meio mais refletido, e despido da camisa de força que lhe impôs a primeira administração, grande embusteiro, age indiscriminadamente com as armas mais eficazes que conhece, sendo o causar medo e espanto a todos, a mais efectiva. Megalomania pre-ditatorial. Só os reis comemoram nacionalmente seus aniversários. Os faraós queriam ser deuses, e se proclamavam. Esse desejo incontrolável de se ver reconhecido leva o senhor Trump a cometer os maiores despautérios, mas poderemos delinear uma intencionalidade dictatorial nessas atitudes, que veremos se agravar com o desenrolar do mandato. A autocracia. Tivemos o 'Shiva' francês do princípio do XIX, depois no princípio do XX, o da Alemanha, instrumentos encarnados do mal, agora o 'Shiva' do princípio do XXI, americano, irá também deixar um mundo diferente, e também pelas piores razões, sendo o traço comum, o desejo de poder absoluto, poderes como aqueles que tiveram outrora os reis, e que só a componente bélica o permite. A tentativa feita no Capitólio é o mais rematado exemplo de suas intenções. Posto que o princípio desestabilizador é o veículo para sua deflagração, só o efetivo poder das armas permite que se instaure e permaneça enquanto durar esse poder. O triste fim. Disseminar o pânico. Reindustrializar o país, quando este período já foi ultrapassado, apesar de ainda possa ser possível repetir, são retrocesssos para o "again", trazer de novo o passado para evocar o futuro, quando sabemos que a realidade é e será sempre outra. O poder de destruir as instituições, que é um poder avassalador, configura uma capacidade de realizações, que primeiro o que subjuga é a alma de quem a tem, de quem tem essa capacidade, tornando a alma do poderoso priioneira deste poder, corrompe-a de tal modo que Shiva nada mais vê que seus feitos destrutivos, sempre mais, até quando for muito tarde para qualquer ação de renovar, refazer, restando escombros por toda parte.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

CUIDADO: A verdade é que Não há farsa que não termine em tragédia.

Todas as vezes que a impostura prevalece, que um ato ridículo se difunde, o final é trágico. Resultante da assertiva de Karl Marx quanto ao processo histórico e sua ocorrência, ao complementar a ideia de Heguel, forjando a frase tantas vezes mal repetida, que aqui damos em sua formulação original traduzida: "A História repete-se sempre, pelo menos duas vezes..." "a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa", temos aí a conjugação de dois polos opostos das possíveis consequências do processo histórico que se verifica sempre como solução de sua ocorrência, sendo esta repetida, como podemos verificar, mas não da mesma maneira. Uma vez que todo ato ridículo atinge e ofende a quem ridiculariza, tanto como a quem a ele exposto sente o absurdo do ridicularizar. Se o processo for deixado livre, se irá espalhar ofendendo, agredindo aos que tomarem parte, e por oposição reagindo de forma grave, muitas vezes perigosa, e às vezes funesta. Sói também dar-se o inverso, a brutalidade da consequência grave ou mesmo funesta, degenera na sua repetição em ridicularia, tornando-se farsa. Entretanto cada vez mais temos processos falsos, onde sua ocorrência foi premeditadamente programada para o ridículo, este que no todo, em seu conjunto, não passou de farsa encenada, esta mesma que irá provocar reação muito intensa da parte dos afetados por ela, uma vez que ninguém aceita ser ridicularizado, ou ver sua posição ridicularizada impunemente, sem reagir. O RESULTADO costuma ser, em maior ou menor grau uma tragédia, como resposta, uma vez que reagem violentamente na maioria das vezes. Se o farsante for expressivo, e a farsa bem encenada, temos que a audiência, as testemunhas, poderá ser enganada pela situação, ou até mesmo envolvida nesta. Cada vez mais temos farsantes em toda parte encenando seus dramas, políticos, pessoais, familiares, institucionais, etcetera, com o fito de envolver os pacientes, obtendo deles apoio, dinheiro, trabalho ou coisa semelhante que lhes renda proveitos de formas várias. Cabe aqui muito bem agora a frase difundida por John Fitzgerald Kenedy, de autor desconhecido, adaptação de uma frase de Jacques Abade atribuída a Abrahan Lincoln: "Você pode enganar uma pessoa por muito tempo, algumas por algum tempo; mas não consegue enganar todas por todo o tempo." Com isso os logros sempre terminam, mais cedo ou mais tarde, e quando terminam revelam sempre seu aspecto trágico, sua face devastadora, uma vez que os dois polos tendem a se confrontar, razão do consequente desaparecimento, em quase todos os casos, do farsante. Essa ideia cômica da farsa, geralmente representada em um só ato (por razões óbvias), uma impostura encenada teatralmente com o intúito de divertir, logo se gneralizou a denominar o ato ridículo como zombaria, onde a intrujice ganhava o contorno de gozação para além da pantomima sendo que seu ponto nevrálgico era esse mesmo; apesar de que nunca iremos saber o que nasceu primeiro, se a farsa como encenação teatral, ou se a farsa como logro, inspirando-se mutuamente, um no outro certamente, sem podermos determinar qual a fonte, a ordem da ocorrência, a precedência. Fato é que ao longo dos milênios de vida em comunidade, os homens sempre instituíram, estabeleceram farsas, enganado ao amigo, ao vizinho, à família, aos seus eleitores, às autoridades, numa sucessiva pantomima indecente que vem se alargando com o decorrer do tempo. Hoje temos farsas universais, com amior ou menor calibre de engano, abandonando o caráter bulesco e popular, e mantendo o caricatural pouco visível, para uma dimensão de sucessivas narrativas políticas pretensamente credíveis, visando enganar cada vez mais gente, e se institucionalizando quando o farsante consegue atingir o poder, tendo como substrato a operacionalidade da farsa que, instituída, torna-se corpo de ideias, possibilidade angular, permitindo o desenvolvimento da mentira falseada - a farsa em si - para dar asas a sua intenção de controle da credulidade, visando sempre o lucro, para tal promovendo as narrativas misteres, alguns farsantes com grande poder para as legitimar. Eis pois o cerne de toda revolução e/ou golpe, de toda ascensão de forças oponentes ao poder a que se opõem, tomando-lhes o lugar; e de toda verdade propalada, ou de toda mentira afirmada como verdade, enquanto durar sua crença, e sua difusão. Porém, como tudo nesta vida, passa, e ao passar trará consigo a tragédia, desde a colectiva, expressa em banho de sangue, em sua versão mais abrupta e intensa; até a individual, tantas vezes ocultada, para evitar a chacota geral, até de outros que também caíramm no logro e não o irão revelar. A tragédia do engano é indissolúvel, e perdurará contra todas as desinfecções. Por outro lado "A Igreja do diabo" como no conto Machadiano, criará raízes por seu turno, reafirmo, sanitárias, que curarão, por quanto tempo forem lembradas, os logrados - tragédia íntima, pessoal, quase sempre ocultadas , mas não menos trágicas. Assim tivemos as concepções mitológicas de milhões de deuses ou das sirenes; as peças de Aristófanes, Terêncio e Plauto, depois as de Sheakespeare, Molière, Dancourt, Lesage, e as do próprio Gil Vicente; bem como, abandonando o terreno literário, temos os grandes embustes do Gigante de Cardif, da Sereia de Barnum ou do Museu Nacional da Dinamarca, do Homem de Piltdown, do big foot, muitos com identidade científica: SEMPRE A MENTIRA E O DINHEIRO. Agora, o relativismo do falso 'ministério da palavra', o do embuste, difunde-se cada vez mais, mas como todas as ondas sobre a praia, acabará por se recolher, e a tragédia sobrevirá. Quanto aos grandes engodos realisados na apostasia da verdade, que tendem a se materializar nas grandes tragédias de nosso tempo que abre cada vez mais espaço a farsantes de toda laia, pelo apoucado senso crítico das massas, que com isso comungam com os impostores, sendo igualmente culpadas. Deixo-Vos por fim para reflexão, a colocação daquele que foi "sígno de contradição", como queria o velho Simeão, "Luz dos homens" Jó 1: 4-5; aquele que veio para dar "testemunho da verdade" Jó 8:32, e poucos o ouviram, e não esqueçamos o alerta na primeira carta a Timóteo, 2-5, que ensina que Deus quer que conheçamos a verdade, quando diz: "Ai de vós, fariseus, hipócritas! Porque sois semelhantes a túmulos brumados, que por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos, e de toda a imundície. Assim também vós por fora pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade." (Mateus 23: 27 e 28.). Ninguém engana ninguém por qualquer justa razão.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Morreu um gigante.

Cedo vi a notícia na NET, mas como as redes estão cheias de mentira, aceitei a ideia de mentira. Como ela se repetia, fui ficando incomodado até que fui ver nas televisões. Tristemente era verdade. Não existe certamente melhor ou pior tristeza, mas como a minha não é religiosa, não me posso considerar católico, e mesmo qualquer prática religioisa nunca me seduziu, o que nos leva a poder concluir que minha tristeza terá mais peso, nem melhor nem pior, mas, quero crer, é mais consubstanciada. Eu o ser político, o guerrilheiro, o socialista, me entristecer, leva a questão do porque da tristeza, e quão funda ela é, ou possa ser. Tendo lido n'A Pátria o excelente texto de Gilda Jardim, lembrei-me do meu intitulado Valores, inspirado por uma pintura mural de rua, onde Francisco aparece como um super herói, tipo super homem, com uma pasta na mão onde está escrito o título do texto, demonstrando o que já no princípio de seu pontificado havia ficado claro para todos nós que Francisco tinha a um nível raramente visto, e sem máscaras. Evidentemente tudo marchava muito devagar, como é sempre no Vaticano, o que sempre me afastou da Igreja, juntamente com a califasia, os valores retrógrados, e as ideias apartadas da realidade mundial praticadas por esta entidade a que chamamos cúria romana. Estava sempre consciente que Francisco tinha de ultrapassar todas essas adversidades, entre muitas mais, como se fora o guerrilheiro que caiu no Pontifex Maximus status, afinal foi uma escolha de seus pares cardeais, não foi? Mas Francisco era diferente -Valores - Propósitos - Ação - Exemplo - um conjunto de coisas muito simples, mas que não enganam ninguém. Todos somos capazes de sentir se é ou não verdadeira a demonstração, a forma, a intensão. Sim, havia ali qualquer coisa. Mais que tudo um homem normal. Se refletirmos bem, encontramos sinceridade, frontalidade, verdade. Tão mal acostumados andávamos de aparências de sinceridade sob capas de aparência, nada mais, treinados que são. Francisco aos poucos nos convenceu de sua verdade, por ser verdade. Palavras muitas vezes difíceis, mas sinceras, que traziam algo novo, sintonia com o nosso tempo, ecos da realidade, essa que era tão distantes ao papado, pensando talvez preservar a Igreja, mas que soavam como fraqueza, como covardia, e nada pior que a fraqueza moral, em Francisco víamos ruir tudo isto face a uma análise lúcida e sem califasia, vinda de uma preocupação legítima, que mais se pode querer de um homem de Deus? Eu gostaria que ele fosse eterno, que não faltasse neste tempos difíceis, particularmente difíceis à conta d'A Época dos psicopatas, essa que vivemos, como escrevi aqui no final de Fevereiro passado, porque Francisco era uma enorme barreira, gigante que era, a esta sanha que vivemos neste terceiro milênio. Entendia que o mundo era igualmente de todos, assim como sua Igreja, que deve ser o espelho do mundo, única forma de nos safarmos neste planeta que é único, não há planeta B, e é mesmo de todos, porque os avanços tecnológico assim o permite; mas eu não havia gostado nada de sua voz quando nos apareceu a desejar "Buona Páscoa". Sabia que a chama se iria apagar, só não queria que fosse já, sendo esse 'já' um sempre, posto que será muito difícil um outro Francisco. Contraponto absoluto à insania actual. Possibilidade de ainda podermos ouvir a verdade dita por alguém com poder, e sem mistificação, sem contornos, e sem dúvidas, porque sua inteireza era muito visível e audível, para lá de qualquer ilusão. O que é verdadeiramente importante nisso tudo, é nos trazer esperança, essa que brota de suas palavras. Certificado de que era verdade, que não iremos mais contar com a lucidez de Francisco, restou-me a mim, o socialista convicto, enxugar uma lágrima no canto do olho por alguém imprescindível, o gigante que morreu.

sábado, 29 de março de 2025

Do vazio à queda do céu.

No princípio Uaueaue imperava, logo nada havia, mas como Rotumodi se manifesta, muda como tudo era. Uma queda, e tudo mudou. Cosmovisão Yanomami : Ruto kara - o plano terrestre. Ruto modi - o céu. Sukunima modi - o embrião, o proto-céu. Uaueaue - o Vazio. Rotumodi vai cair sempre, como a mais avançada ciência o confirma, pois que viemos do nada é bem sabido. Cosmogonia Yanomami: Uaueaue - Existia antes da queda do céu. Rotu modi - O CÉU VAI CAIR SEMPRE, o céu sempre cai. Propriedade - Não somos proprietários de nada. Com quantos nomes eu me satisfaço? Não eu sou! Do que seremos dono? Deus não pode ser outra coisa que universalista, donde se conclui que não há onde comecem e onde terminem as terras de Deus. Assim nos ensinam que não existe começo nem fim do mundo. Filosofia Yanomami: Ruto kara - Parte do céu de onde a terra nasceu. Não pode existir nem começo nem fim. Não pode haver nem princípio nem fim do mundo! Tudo é! O entendimento Yanomami, nos confins da Amazônia, onde vive esta tribo, que por quatro séculos e meio evitou o contacto com o homem branco desde que este chegou ao continente, tendo sempre desenvolvido e mantido a percepção da separação do que é material e não é material, do que é humano, e do que não é, o que é seu legado mais precioso. Prática Yanomami: Quando caça - O animal é de todos. Não entendem que algo que existe para todos, possa ser só de uns. Essa ideia posta em prática cria uma vida comunal, na qual tudo é de todos. Xamanismo Yanomami: Xapiripê - O espírito. O espírito que habita tudo, todos os seres, os animais, as árvores, as rochas, as cascatas, tudo, é habitado, tem alma. Antes do céu cair: Vou fazer umas quantas perguntas para ver se entendemos que existem diversidades de entendimento, de percepção, e de sensibilidade, que podem criar dimensões totalmente diferentes do que nós acreditamos ser a verdade absoluta. Não há verdade absoluta. Há verdades, e todas elas são relativas. Do que seremos donos? Quem dirá que a nossa noção das coisas está certa e a deles, os Yanomamis, não? O que é realmente meu? O que será propriedade de alguém? Mais genericamente: O que será propriedade? Fico a matutar quantas guerras, quantas mortes, quanto desentendimento, quanta desgraça teria sido evitada se pensássemos como esses índios pensam? É uma gente tão bonita, se ornamenta com penas, as mais bonitas e coloridas, sorriem com o mais fundo de sua alma, e vivem sua intensidade na plenitude. Eu penso cá comigo que haverá de ser melhor e mais feliz quem vive no mundo Yanomami.

quinta-feira, 27 de março de 2025

AVISOS.

Quem trata destas coisas nunca é bem visto, ninguém quer ouvir que as coisas vão correr mal. Mas o que eu posso fazer se as coisas vão correr mal? Ignorá-las, como agora fazem os políticos? Os da ciência não fazem assim. Temos de dispor do tempo que a antecedência com que percebemos as coisa nos dá, empregando-o em prevenir, transitiva ou pronominalmente, em todas suas acepções, é prevenir o que nos resta, porque o tempo de evitar já passou mor das vezes. Não tendo ainda dito do que se trata, e o meu caro leitor ponderado, calmo, senhor de si, aguarda tranquilamente pelo desenvolver do tema. Fato é que esta interpretação serve para muitas coisas que por aí andam a nos ameaçar. Primeiro vejamos o que é prevenir: 1.Dispor (se) de antemão, preparar, precaver (se), precatar (se).. Assim como evitar, prevenir é uma ação anterior a qualquer ocorrência adversa. Por exemplo no caso da imensamente danosa ocorrência global a que intitulam alterações climáticas, mas que, como demonstrei em vários outros textos, é muito mais que isto; foi oferecida há 20 anos a via de evitarmo-la, o que foi sistematicamente menosprezado por expresiva parte dos político (poder de fazer). No caso das Nações Unidas, onde é mister dar-lhe feição e poder efetivo, idem, nada foi feito. Há muitas e muitas situações em que deixaram passar o prazo de actuar para EVITAR, deixando logo passar também o prazo de prevenir, restando a possibilidade de remediar, mas, como veremos, há situações irremediáveis. 2.Avisar, informar, advertir. Foi e tem sido amplamente difundido avisos, advertências, quanto as muitas ocorrências danosas, desde as movimentações para a invasão da Ucrânia por parte da Rússia, até ao retorno da tuberculose. E as consequências da advertência feita por quem tem saber para fazê-la foram menosprezadas por quem tem poder para evitá-las. Vamos perder a guerra na Ucrânia, e uso o plural porque todos perdemos com a derrota da Ucrânia, o quanto, ver-se-á mais adiante quando se consumar. 3.Tentar evitar. Como ficou visto prevenir, a qualquer tempo, é tentar evitar o mal caminho. Quando complexas e dispendiosas as ações misteres para prevenir, estas não são operacionalizadas. Ninguém que enfrentar a realidade inconveniente, que exige maiores inconveniências para eliminá-la. 4. Acautelar-se, livrar-se. São tantas as vezes em que a cautela, mesmo a do comportamento mais banal, pode contribuir para nos livrarmos de situações piores, mais graves, comportamentos que vão desde separar o lixo, não consumir determinados produtos, não fazer determinadas coisas, criando hábitos que acautelem problemas que ocorrem em razão dos hábitos errados, até alterarmos nossos hábitos. Sendo verdade que há medidas em bem maior escala necessárias a coibir a queda no poço, no precipício, para onde tantas vezes caminhamos, como por exemplo ACABAR com 80% da industria do plástico. E não querem falar disso porque incomoda inúmeros interesses instalados, desde os empregados aos donos das fábricas. 5.Evitar, impedir. Nesta acepção, só pode impedir quem tem poder para tal. Evitar todos podem! Fato é que as populações em muitíssimos casos não se colocam para impedir as muitas desgraças que as ameaçam - QUE NOS AMEAÇAM - ação só possível com manifestações e com o uso do VOTO. 6. Predispor o ânimo de. É o que tento fazer aqui. Sabendo que sou desagradável, logo mal visto. Meu caro leitor, penso que sem excepção está muito, muitíssimo consciente que o prazo de evitar as desgraças que a resposta ambiental está, e continuará a dar a um nível cada vez nais violento, e não é só no clima, pensem um pouco: Onde nos irá levar a ingestão diária de microplástico a que estamos sujeitos? Em que medida as populações afetadas pelas alterações climáticas serão protegidas? O que está sendo feito? Todos os dias constroem-se muros! PIORES OS INVISÍVEIS, QUE OS EM MATERIAIS RESISTENTES! O que faz você, caro leitor, para PREVENIR situações que sabe serem negativas, destruivas?