terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Ano Novo, quem sabe, feliz?

1. Da condição. Toda surpresa do entendimento é tão plena como a da incompreensão, esta mesma que não existe, assim como o frio não existe, e que como a física nos ensina, há apenas falta de calor, este que efetivamente existe, e que sentimos igualmente ao frio, por presença ou por ausência as coisas se fazem notar. Temos incompreensão quando não compreendemos aquilo que notamos, entretanto ela não se faz presente, por isso a notamos, e é sua ausência que nos vem ensinar, porque não está lá, e nós que lutamos pelo entendimento com a cabeça de quem sempre busca perceber as coisas, não entendemos o que se passa quando este (que se passa) são o vazio ou a ausência, porque não colecionamos ausências, estas que costumam ser mais eloquentes e instrutivas que a maioria das presenças, dispensando as palavras como nas trilhas sonoras de Morricone, que nos faz cantar suas músicas ainda que sem palavras, como nas telas do Bosch, ou então com palavras, como na poesia de Vinicius, onde só o sentimento prevalece; e, com ou sem palavras, dispensando também as demonstrações, porque tudo já foi entendido com a plena incompreensão manifesta. O sentimento tem forças telúricas, oníricas e mágicas, como poemas soprados ao vento, que ficam impregnados nas almas, arrancados à vida, esta particularidade que não podemos evitar. 2. Do estado. Já não somos mais. Já não estamos mais. Já não pertencemos mais. E a sensação não nos abandona. A impossível compreensão perde-se na surpresa sem entendimento, mas é tão forte, tão presente, como se existisse, e nós, que a sabemos não existir, mesmo assim não conseguimos nos livrar dela, a ausente mais presente em nossas vidas. Dialética do absurdo, gramática da estupidez em sua mais absoluta retórica, de tudo o que entendemos, por não entendermos. 3. Da ocorrência. Encontro desesperado do desencontro, essa arte tão subtil quanto brutal, sem humana compreensão, desumana que é, também torpe e fidedigna, retrato perfeito do que não existe, senda sem rumo de caminhos incertos, posto que nada restará. Tudo passa por nós e nós passamos por tudo, incólumes e devastados, nesta dupla sensação que como tintas primárias se fundem gerando uma nova cor, que não sabemos designar, que macula nosso pensamento e alma, na impossível certeza de nos fazer duvidar, porque não há nada para se crer neste mundo de meu Deus. Só a inteireza, a boa vontade e o amor, poderão transformar esta incredulidade. 4. Do ser. Depois de alguma estrada, múltiplos e desencantados voltamos sem surpresa a entendimentos fatídicos sem passado, sem futuro, na presença exclusiva da memória, esta maldição incruenta que nos conforta e aterroriza, que, sendo nossa única tábua de salvação, é ao mesmo tempo o precipício em que nos lançamos por falta de melhor opção, já que habitamos e somos habitados por todos os fantasmas baldios, como um espaço que sendo de todos, é de ninguém. Em nós e fora de nós. - Ali vivia d. Fulana, onde andará? Aqui não era uma pracinha? Essa era a casa da menina, minha primeira namorada, nunca mais soube dela. - Toda a roda de coisas que nos habitam desajeitadas e desajustadas para além da nossa vontade, e que seguem imparáveis e sem eixo, desabaladas e estáticas, dupla e exclusiva condição, em coisas impensáveis, para almas insaciáveis, em presenças muito vívidas, como só soem ser as que não mais existem, apartadas definitivamente da decrepitude dissolvente que tudo esmaece, descolorindo a felicidade, esta cuja cor desconhecemos, no entanto a cremos pintalgada como canteiro de múltiplas flores. Será? Pouco custa desejar. E tendo girado a roda, melhor ou insensatamente impelida, sucederam-se estações, anos, talvez mais, posto que o tempo, esse senhor absoluto da vida (e da morte) implacável como é, tudo vence, exceto ao amor, à bondade, e à inteireza; tudo mais ele faz fenecer com sua passagem (e nós, tolos, festejamos), ou, então, faz ressuscitar na sequência daquilo a que chamamos existência, inarredável condição em nós, e que, quando se torna extrema, nós, ignorantes, prestos em seu derradeiro requisito, diletantes, devemos desejá-la feliz.