quinta-feira, 14 de junho de 2018

13 DE JUNHO - DIA DE SÃO FERNANDO.





Sei que para a maioria das pessoas foi dia de Santo António(*), para as moças/raparigas casadouras, então, nem se fala, mas para nós, os poetas, todo 13 de Junho temos outro santo em nossos altares: São Fernando Pessoa, que este ano comemoramos 130 anos de seu natalício. Ainda que essas datas dos santos sejam mais ligadas às suas mortes, como associamos a beleza à vida, e a palavra de São Fernando é beleza pura, beleza em forma escrita, beleza sintetizada em versos, comemoramos o dia de seu nascimento.

Como também nos sentimos desamparados com sua morte (30/11) também a evocamos como dia de grande pesar, e de  infinda veneração. São Fernando segue com sua voz absoluta em aparições diversas, ora é o anjo anti-metafísico Alberto, entretanto pode materializar-se como o o divino Ricardo, que segue vivo, apesar de o terem querido morto em 36, bobagem, está vivíssimo, e de vez em quando aparece. Outras vezes é o futurista, e depois onomatopaico Álvaro, em que se materializa, sendo o outro, para poder ser ele mesmo. São Fernando é assim! Outras vezes é o desassossegado Bernardo Soares, que, na verdade, nos desassossega a nós na maravilha de seu questionamento. E segue por muitos caminhos, alguns menos angelicais, mas como é santo, tudo que faz é puro, e nesse caminhar acaba por materializar-se no suicidário Barão de Teive, que não teve outra escolha que se revelar sossegadamente em meio ao desassossego então reinante, quando o santo é pego em 'flagrante de litro' nunca mais se recompondo, pois que o que este continha lhe devorará o fígado, na mesma proporção que lhe desafogará a alma. E por fim São Fernando subiu aos céu, nesse em que vive como padroeiro-mor de sua pátria, a língua portuguesa.

http://hdocoutto.blogspot.com/2015/11/80-anos-sem-fernando-pessoa-podera.html



Ofídio, Ofélia, Orfeu.

                                                Solução de desamor/
                                              /Labirinto da alma.
                                                                                         A  FERNANDO PESSOA/
                                                                                          / BERNARDO SOARES.


Tem os venenos destilados todos
Em sua bolsa inoculadora, que só em si inoculava,
Rasteja por todos os inquinados lodos
Mutilado, sem raciocínio e afetividade, andava.

Expressão de covardia sem busca de mimos
Serpente exponencial sem harmonia
Dédalo em Knossos a procurar por Minos
Seu vazio pleno que ao vazio enchia.

Chamava-se Ofélia, Eurídice
E a matéria, quimera
Sossego é não como disse
É o que foi e o que era.

Da revista, o nome indicativo, és
Do que sempre quis ser
Com o corpo despedaçado em papéis 
Morre-vive em seu poder.

(*) Santo António também se chamava Fernando, ou Fernando Martins ou de Bulhões, perdeu-se no tempo o seu nome de família, e porque não Pessoa?

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