terça-feira, 13 de março de 2018

Serão recorrentes...







Há cadáveres boiando, de crianças, mulheres grávidas, trabalhadores, gente que buscava uma vida nova. Há também heróis que pelejam por salvar vidas e evitar essas mortes, conseguem algumas. Há miseráveis famintos, há aproveitadores, há traficantes de vidas, há riscos, mortes, miséria, tudo que não devia haver por falta de decisão, por covardia, por acomodação. Tudo deve-se à falta de coragem dos dirigentes europeus que não arranjaram uma solução para o caso. E é das coisas mais simples.

Há exatos 20 anos eu escrevi para o diário espanhol El País um alerta para termos atenção com África, e o fazia dentro das preocupações deste noticioso na época, sempre atento ao mundo, mais particularmente com os países africanos, visto Espanha ainda possuir partes de África, o que lhes leva a ter atenção alargada nesse ponto, mas eu escrevia por solidariedade, sem visões geo-estratégicas, sem maiores considerações que ajudar um sexto da humanidade excluída dos avanços do progresso, excluída das condições sanitárias, excluída dos apoios sociais, excluída, enfim, do que é nossa civilização, melhor, podemos dizer, do que foi nossa civilização no século XVIII, estando num tempo de exclusão que lhes faz retrogradar três séculos, é muito injusto. E na minha inocência era o que me animava a pegar da pena então.

Logo a seguir o senhor Clinton fez longo périplo por diversos países africanos para, num gesto, tentar incluí-los no mundo civilizado, certamente os 'bureaus' das muitas inteligências que assessoram os presidentes dos EEUU, haviam recomendado uma aproximação por razões geo-estratégicas e outras. Meus escritos, muito mais modestos, e com outras motivações, queriam apenas trazer esse contingente humano para a civilização, mas, lembro-me bem, afirmava que comercialmente era um grande negócio, pois iria resgatar um bilhão e meio de consumidores, e acrescentava, ávidos, pois não possuíam nada, desde os electro-domésticos que eram publicitados para nós, os básicos, nos anos trinta e no pós guerra, até aos computadores que naqueles vinte anos atrás eram o novo 'hit' de consumo.

A verdade é que os americanos não conseguiram muitos êxitos em África, é claro que estão lá com participações desde os diamantes na Guiné Konacri, com a venda de armas obsoletas para os diversos países se guerrearem, até as maravilhas da medicina para quem pode pagar, só atuam em atividades pontuais sem um projeto integrado que é o que os africanos precisam. A China, inteligentemente, vem se instalando com vistas mais largas de futuro, hoje com raízes profundas encravadas no continente africano. Mas a verdade é que não há um projeto concertado de atuação visando a evolução e o progresso das enormes populações excluídas. A ONU devia servir para isso. O Guterres sabe disso.

Entretanto África veio bater às nossas portas. E isso que eu não previra é a mais forte resposta a uma necessária ajuda desenvolvimentista, não motivada altruisticamente como eu há 20 anos em minhas ideias aventava, mas bem egoisticamente com vontade de resolver o grande problema que aumenta a cada dia, e que se chama África como um todo, por este vir repercutir nas nossas vidas na forma de refugiados, emigrantes, necessárias ajudas econômicas, etc... e até nas pungentes  imagens que nos chegam da fome, da morte  e da guerra.

Necessário é ter em atenção que África é um continente rico, muito rico, que ainda não deu de forma salutar seu contributo para o progresso do planeta, e a forma salutar de dar é recebendo também, deram matérias primas, produtos básicos, e força escrava para fazer a riqueza de quem os explorava, mas ainda não estabeleceu um desenvolvimento suficiente para contar nas listas dos PIBs e produtos do desenvolvimento, mas como demonstra a África do Sul, e mais recentemente Angola, apesar de toda exploração, jogos de interesses e corrupção em que vivem, o progresso e o desenvolvimento são possíveis e até fáceis de alcançar, e depressa, na geração.

O que temos hoje são enormes contingentes populacionais de excluídos que têm de ser chamados ao convívio do progresso mundial do século XXI, nada menos que isso, e mesmo por razões egoístas, por que se não as hordas de migrantes e refugiados, com a situação de guerra e mortandade, e a ameaça terrorista, as doenças e os desequilíbrios econômicos que o continente proporciona  e exporta, serão cada vez mais recorrentes.




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