sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Dickens, eterno.




                                                                                                 


Tenho Mr. Pickwick sentado num dos sofás de minha sala, sempre estará lá. Pela minha janela penso ver passar Fagin com John Dawkins e Oliver um pouco mais atrás, e não vivo na paróquia de São Pedro, mas na de Santo António. Sam Weller me vem pedir conselhos. David Copperfield é meu íntimo. Nicholas Nickleby anda sempre por aqui. Penso firmemente que Fernando Pessoa trabalhou alguma vez em Dombey and son. Um grilo canta na minha lareira, e, evidentemente estarei sempre magnetizado ao ver a recuperação extraordinária de Mr. Scrooge, com alguma ajuda de seu antigo sócio acorrentado, Jacob Marley, e dos três espíritos do Natal que o visitam, mas, sobretudo, pela candura e bom caráter de Bob Cratchit, pleno de amor contagiante por seu pequeno Tim. Antes que eu comece a chorar deixo a minha Londres interior rumo a outras plagas, mas que estarão sempre na essência da sensibilidade reta que me conformou na dicção que transborda de Charles John Huffam Dickens.

Num sete de fevereiro de há dois séculos e sete anos, nasceu essa mente brilhante, da qual, em catadupas, jorravam histórias de uma sensibilidade única, com o dom de tocar-nos a todos, e nos tornar melhor, mais conscientes do próximo, mais atentos com a realidade e às perversões que esconde, numa revelação constante de seu entendimento e refinada percepção, criando cenários que nos levam por uma paisagem de fantasia e compreensão. É o que venho saudar nesse dia de hoje, passado esse largo tempo, para Vos fazer relembrar que a imortalidade, por isso o alcunhei eterno, existe para aqueles que tocaram as almas e mentes dos que, como que por ação vara de condão, se viram envolvidos na supra-realidade de alguém capaz de nos transportar para a esfera da emoção, única verdadeira norma e critério pleno do verdadeiro entendimento, capaz de ensinar e moldar a Humanidade na viagem que empreende rumo ao esclarecimento.

Foi lembrado pelo excelente artigo de Jill Lepore que no 'Life and Letters' do The New Yorker sobre Boz, que resolvi escrever essa crônica, porque como não escrevia o blog na época do Bi-centenário, não registrei o momento em que o completava esse escritor que encantou boa parte da minha vida.

Dickens, numa sociedade moralista como a victoriana, e, evidentemente também falso-moralista na valorização de temas ilusórios que a clave do tempo impõe como ilusão de pretensa realidade, veio discuti-las, veio apontá-las, veio criticá-las, e com sua limpidez de explanação, expurgá-las do excesso e da falsa interpretação que suportavam. Esse seu maior legado.

Relembrá-lo nunca é mau, e convidá-lo ao convívio é sempre educativo, receber seus filhos, não a dezena que gerou de si, mas os mais que moldou com o barro de sua percepção, nos distrai e melhora,  por fazer-nos aceitar sua lógica que é, e sempre será, engrandecedora para todos e cada um de nós, por isso, por esses sempre irrecusáveis, Dickens é eterno!




  



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