sábado, 1 de agosto de 2015

A Europa dos quarenta mil.






Não abordando aqui a responsabilidade que conclama todos nós que direta e indiretamente temos responsabilidades no processo dos refugiados que acorrem a Europa em número de milhares que se contam diariamente, onde com suas vidas postas em risco, entregues ao tráfico humano, sem alimentos ou condições para a travessia, lançam-se nas águas nas mais frágeis e inconsistentes embarcações, fugindo, arriscando, jogando tudo o que têm, e o que têm é esse dom divino que nos foi concedido a todos para o gastarmos da forma como pudermos, e que não deveríamos poder arriscá-lo como num jogo de roleta russa, num tudo ou nada porque não nos é dada outra solução.


Desconsiderando isso, se é que o conseguiremos fazer, mesmo hipoteticamente, temos um problema numérico, um grave problema numérico que revela-se numa acusação terrível: 1º todos sabemos que existem cerca de trezentos mil refugiados já em território europeu espalhados por diversos países, 2º sabemos também que há mais de um milhão de refugiado pelas bordas africanas do Mediterrâneo na expectativa de moverem-se para o território europeu, mesmo que o preço a pagar sejam as suas vidas, 3º somem a esses números outros duzentos mil em situação precária em lugares como o Dubai, Cairo, ou Abu-Dhabi esperando uma oportunidade, 4º há ainda um número indeterminado de refugiados em campos disseminados em diversos pontos do planeta com essa mesma expectativa, tudo isso somado a demanda é de milhões e os que já são uma realidade em território da Europa é na casa das centenas de milhares, aos quais somam-se milhares todos os dias.

Calais, misto de campo de batalha com bairros de lata em formação, é o exemplo típico do que se vai passar, cada vez com maior intensidade, por todo o território europeu, com mais pressão em uns países que em outros. Entretanto há outros números que mostram outra face mais reveladora das possibilidades, talvez, em muitos casos, devamos dizer necessidades, dos diversos países europeus, por exemplo só em Portugal, um pequenino país, em território, população e recursos, o número de emigrantes antes da crise era na ordem de um milhão, muitos dos quais ilegais, é verdade, mas que residiam, trabalhavam, produziam e consumiam em território português, e que foram embora para seus  países de origem,  imaginem as possibilidades, espanholas, francesas, britânicas e por aí além...

Tudo isto visto, a Europa responde a esse enorme problema, que agora grita desde o fundo do túnel do canal, e segue gritando das águas do Mediterrâneo, onde essa massa humana já sem nada a perder, morre aos milhares, numa média de doze por dia, já mais de dois mil no primeiro semestre desse ano, responde com a oferta de receber quarenta mil refugiados, distribuídos por quotas entre os diversos países da Comunidade Europeia. Parece brincadeira, mas não é. Penso que se não acordarem para o que estão fazendo essas diversas cabeças que há à frente dos diversos membros da comunidade, essa Europa ficará conhecida como sinônimo de miséria e mesquinhez como a Europa dos quarenta mil. 

Sem comentários:

Enviar um comentário