quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Os 12 de Inglaterra - Seis séculos de uma galanteria.





Estou absolutamente convencido que os doze eram treze, mas isso não tira mérito nenhum aos seus feitos gloriosos, à sua proposta vívida, e à obra realizada; e por mais ao detalhe assombroso de que em todos os recantos não se encontrou, se não em Portugal, quem defendesse a honra denegrida das donzelas inglesas.

Conto a história, para relembra-la, antes dos comentários.  Com a morte do Príncipe Negro, seu pai, Richard, o segundo desse nome, já no ano seguinte com a morte de seu avô, o terceiro Eduardo, aos dez anos de idade sentar-se-á no trono de Inglaterra, e no de França, juntos a esse tempo, e será Lord da Irlanda e Príncipe de Chester, tinha coração tão diferente do anterior Richard, o primeiro do mesmo nome em Inglaterra, que foi guerreiro até na alma, já este segundo Richard, das rosas, foi um invisível beligerante, que Shakespeare arrasa para todo o sempre a fama e o nome, nome com o qual mesmo intitula sua peça, libelo acusatório para a eternidade, este Richard reinará por dois anos mais que duas décadas, quando será destronado por seu primo, terminando deste modo sua dinastia, indo os Lancasters sucederem aos Plantagenets. Tendo deixado uma situação má no reino, tendo se revelado portanto um rei fraco, o que, como se sabe, "faz fraca a forte gente" como está dito no Canto terceiro dos Lusíadas. Entretanto o que aqui devemos lembrar está no sexto, e é do tempo do quinto Henrique inglês, que é filho e sucederá ao quarto, que destronou ao primo, mudando a dinastia como ficou dito, e foi nesse tempo, estou em crer, que, exatos, uma dúzia de nobres, assim chamados por serem membros da nobreza, mas que de alma ou coração não tinham nenhuma, que, em sua arrogância tipicamente britânica, e com presunção estulta, acusam doze Damas, de não o serem, o que equivale a dizer que eram mulheres sem honra, pois de honra é que aqui se trata, e as zelosas senhoras ofendidas no que de mais forte e valoroso alguém pode ter, mas que, por imaterial, tem só resguardo na fé, e na certeza da preservação daquilo que é honor, pudor e pundonor, que lhes era e ficava roubado face a semelhante afirmação, ou como quer Camões, e afirma-o ao fim da estrofe 44 : "Dizem que provarão que honras e famas Em tais damas não há para ser damas" o que ainda mais perpetuavam num desafio, que impedia, como muro no caminho da verdade, a qualquer reabilitação, pois os doze presunçosos desafiavam a quem quer que as quisesse defender, que o fizessem com a convicção da lâmina afiada, ou seja, ao fio da espada, em liça, e que as viessem bater com as deles, as dos que acusavam, pois, convictos de sua verdade acusatória, mantinham a acusação, agora, já, como desafio.

Criou-se, destarte, impasse que só alcançaria solução, a reposição desejada pelas damas, com a defesa de sua honra em embate, em luta que atendesse ao desafio, para repor às damas o que lhes fora tirado pelos doze formidáveis cavaleiros que as acusavam. As damas procuraram defensores entre os da família, entre os amigos, entre os parentes, entre os dos reinos, e de muitos outros cavaleiros noutros reinos que se tratavam debaixo do mesmo rei a essa época, e não encontraram quem as defendesse, quem se batesse por sua honra, essa que fora conspurcada pelo libelo dos doze ingleses que lhes apontavam o dedo, as acusando, pode-se mesmo dizer que foram roubadas de seu mais precioso bem, pela dúzia de acusações que se lhes pesava, e que só na arena, só à força do sangue posto em causa para ser derramado, uma vez  sufragado na contenda, poderia defender e restituir o que lhes tinha sido roubado por força da acusação que as ultrajava, mas para isso eram necessários cavalheirosos cavaleiros, o que não encontraram nos diversos reinos onde os buscaram.

Deste modo, sem ter encontrado ninguém que as defendesse, por estarem todos temerosos dos doze possantes acusadores ingleses, as damas não sabiam que fazer, que posição tomar, uma vez  ofendidas, espoliadas de seu precioso bem, sob a força de uma imputação degradante, resolveram, então, procurar conselho, e aqui começam os enganos e erros que atravessam a história, muitos parecem-nos tão ridículos pelas datas, onde põem o valoroso John of Gaunt, Duque de Lancaster e Duque da Aquitânia,  que morrera em 99 como o conselheiro das damas, retrogradando com os fatos para o reinado do segundo Ricardo de quem lhes falei no início, o que levaria o caso para o século XIV, quando muitos dão como certo o ano de 1396 para as ocorrências que Vos conto, mas não há documentação que o prove. Camões também põe como conselheiro das damas John de Gaunt, o que poria de fraldas alguns dos portugueses que  protagonizam a defesa das damas ofendidas. Com a morte de John de Gaunt, o ducado passa à coroa porque seu filho Henrique, o quarto, tornara-se rei, tendo expulsado ao segundo Ricardo, como eu já havia dito, logo quem estiver no trono será o Duque de Lancaster, assim como hoje Isabel II é o Duque (não disse mal, não é duquesa é o Duque, conforme a tradição) de Lancaster. Após muita pesquisa estou crente que o ano terá sido 1415 ou 1416, por isso agora comemoram-se os seis séculos do ocorrido, mas se assim não for e tiver sido mesmo em 1396, comemoremos então 620 anos, um nobre feito merece memória seja em que contagem for.

E foi assim: tendo conquistado enorme e justificada fama em Inglaterra aos portugueses, por seu valor ao defenderam as damas inglesas que ninguém quis defender, e que elas mesmas não podiam defender-se, ou como foi dito por Camões na estrofe 45, sempre do mesmo Canto VI: "A feminil fraqueza, pouco usada, Ou nunca, a opróbrios tais, vendo-se nua De forças naturais convenientes, Socorro pede a amigos e parentes." marcaram a História com seu feito, que, com a rolança do tempo se foi transformando um pouco em lenda, e exceptuando Fernão Veloso que a contaria ainda século mais tarde, e o próprio Camões, que a este mesmo cita como fonte na estrofe 41 e em outras deste sexto Canto, onde ainda o faz de narrador. Fernão Veloso que Moçambique o nome guarda depois de Nacala junto ao mar, no dito canal nas águas do Índico, e que no Canto V é o herói que é algo covarde (estrofes 31 a 35) tornado cómico, e tendo seguido  Camões a Fernão Lopes de Castanheda (História, livro I, cap II) diverge desse com sua pilhéria, que ninguém registra, nem está no Roteiro de Álvaro Velho, e que Pessoa relembra no seu Bahia de Santa Helena (estrofe 30 e ss) tudo engrossando as brumas nebulosas do longo tempo que segue passando e acumulando poeira.

Não se sabendo ao certo o ano da ocorrida valentia, não havendo registro nas crônicas inglesas, afirmando uns serem os doze e seu magriço, o que leva a treze, que verdadeiramente é o número dos nomes que temos deles, mas que Camões diz onze, mais o magriço que chega em cima da hora, e que teimam em dar a Páscoa, ou a festa do Espírito Santo de1396 como a data do ocorrido, e isto levaria ao magriço ter treze anos de idade, a D. Álvaro Vaz de Almada e Soeiro da Costa, seis anos, pois ambos terão nascido em 1390, o que torna impossível 1396 como a data da galanteria, por estarem estes como participantes no feito e constarem entre os doze/treze, sendo esta questão de idade o que impossibilita este ano apontado como o da demanda. Outros esclarecimentos não vamos encontra à a lista dos doze, que  tem nomes sobres os quais pouco ou nada se conhece, assim se dá com os irmãos Mendes Cerveira, Álvaro e Rui, João Pereira da Cunha Agostim, o sobrinho do Santo Condestável, e Martim Lopes de Azevedo, todos que não sabemos quando terão nascido, nem sabemos mais nada sobre eles que nos permita estimar seus períodos de vida.

Antes de Camões glosar o caso, o único registro publicado que se conhece sobre o mesmo, é o de Jorge Ferreira de Vasconcellos em seu "Memorial das Proesas da Segunda Távola Redonda", que, só pelo título, já remete o relato para o universo das lendas e fantasias, num episódio de cavalaria ocorrido mais de século e meio antes, o livro de Ferreira de Vasconcellos é de 1567, e Os Lusíadas de 1572, o que vem à seguir é o de Pedro Mariz, os Diálogos de Vária História, que é de 1599, que diverge de Camões, mais de150 anos depois dos factos, já sendo uma história com seis gerações pelo meio, é de se esperar que haverá de ter sido bem alterada, mas não a põe definitivamente no grupo das narrativas lendárias, por muito que lhes tenha sido acrescentado (Quem conta um conto apresenta um ponto, diz o anexim.).

Temos ainda na Biblioteca Pública Municipal do Porto, um manuscrito do códice 87, proveniente do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, esse também quinhentista, o que também põe, faz transcorrer, pelo menos um século sobre o assunto, intitulado Relação, ou Crónica Breve das Cavalarias dos Doze de Inglaterra, texto que trata de história similar ao que é sabido, e ao que nos diz Camões e seu opositor Pedro Mariz, alguns acreditando ser o manuscrito sua fonte comum, o que é bem possível. Manuscrito que se for anterior a 1567, será o primeiro registro do feito português em Inglaterra, e que é apresentado com caráter de relato, e não de fantasia, como em Ferreira de Vasconcellos, fica portanto  a dúvida. Como as narrativas não são coetâneas, coevas, da época do ocorrido, a dúvida entre a lenda e o fato se justifica, parcial ou integralmente. O único documento de época é uma queixa dos Comuns, de 1397, de que damas viviam à conta do Rei, com séquito (Memorial, cap 46 - 5,1,6). Seriam as mesmas damas? Seriam outras? Se ocorreu em 1396 como quer a maioria de quem discordo, a queixa é do ano seguinte, e reclama do estatuto que mantinham as damas, o que será defendido pelos treze portugueses. Se ocorreu em 1416, como creio, é uma queixa antiga, já esquecida, mas evidência, de qualquer sorte, que há, que houve damas em vida airosa na corte. Fonte do incómodo dos doze acusadores. De qualquer forma não há dados para que saibamos com certeza.

Agora juntemos a outra meia dúzia de nomes que faltam à lista para completarmos os treze nomes dos Doze de Inglaterra, mas antes dando o nome do Magriço, assim alcunhado por sua compleição: Álvaro Gonçalves Coutinho que nasceu cerca de 1383, e morreu em 2/7/1445; são eles: Os meio-irmãos Pacheco, ou Fernandes Pacheco, João e Lopo, que seriam ambos de 1340, filhos de um dos assassinos de Inês de Castro, Diogo Lopes Pacheco, Luís Gonçalves Malafaia, filho de Gonçalo Peres Malafaia, de quem temos o registro de Luís como embaixador de D. João II (1445-1495) em Castela neste período crucial nas difíceis negociações entabuladas, que apesar de não termos ideia da data de seu nascimento, podemos tranquilamente enquadrar no tempo com esses dados. Pedro Homem da Costa, que será o primeiro  português desse apelido Homem, que terá sido filho de D Pedro Rodrigues de Pereira e de D. Maria Perez Grael, ignoramos de onde vem o Costa, quanto ao apelido Homem há duas lendas, o que, pelos dados que existem, é colocado no século XV, reforçando nossa hipótese. Temos ainda D. Rui Gomes da Silva, Alcaide-Mor de Campo Maior e Ouguela, que terá nascido cerca de 1360, e por fim Vasqueanes, Vasco Anes da Costa, elevado como o  primeiro Corte-Real em seu apelido por esse feito, ou por ter sido o primeiro a arvorar uma bandeira com as quinas nas muralhas de Ceuta aquando da tomada (1415) se seguirmos Fernão Lopes, posto que Azurara e Mateus Pizarro nada dizem.

Afinal como seguidor dos três beneditinos da Congregação de Saint Maur, a quem François Clément copiou no seu L'Art de vérifier les dates. . .   e como também gosto de verificar as datas, e com isso muitos erros tenho encontrado, vejo muitas possibilidades e impossibilidade nessa história, que não peca por ser desinteressante, e guarda o valor lusitano medieval, que logo se transformaria com a magia do tempo, na maravilha de, digamos, para continuarmos camonianamente, "dar mundos ao mundo", onde milhares de homens pereceram, e que aqui treze bravos venceram aos acusadores ingleses de damas inglesas que não encontraram, se não entre os lusos, defensores de sua honra.

Entre a magia que o tempo guarda, temos a deste Magriço, cujo adjetivo tornou-se, por seu mérito, designativo de paladino de damas, e que a maledicência também substantivará em defensor ridículo de coisas inúteis, uma vez que a distância temporal permite muita coisa. 




Sem comentários:

Enviar um comentário